Alexander Kluge


Alexander Kluge, nascido em 1932 na Alemanha, é um vulto da cultura germânica que ao longo da sua vida desdobrou-se em cineasta, escritor, filósofo, advogado e produtor televisivo. Ganhou incontáveis prémios dos quais destacamos o Prémio George Büchner (2003), o Prémio Adorno (2009) e o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza pelo seu filme Die Artisten in der Zirkuskuppel: Ratlos (1968).

É uma das principais vozes intelectuais da Europa contemporânea. Descrito em jovem como «o protegido de Adorno», Kluge criou uma obra vastíssima que pode ser vista como a interpretação, continuação e integração da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt por via da palavra e da imagem.

Começando pelo início: Kluge ganhou notoriedade internacional nos anos 60 sendo apelidado de «o Godard alemão», pelo seu trabalho de montagem influenciado pelos primeiros filmes do francês e que vai de encontro a uma tradição que remonta a Einsenstein, um dos seus mestres. Torna-se também uma figura central do denominado Novo Cinema Alemão (sendo um dos signatários do Manifesto de Oberhausen) bastante influente na segunda metade dos anos 60 e na década seguinte, ao lado de nomes como Rainer Fassbinder, Werner Herzog ou Volker Schlöndorff.

A passagem à literatura dá-se na mesma altura e sempre consciente da diferença entre o trabalho em movimento das imagens e o da cristalização das palavras, escreveu milhares de páginas onde se nota a sua ambição de cruzar a história, a política, a filosofia, a fotografia e os grandes clássicos sempre nessa duplicidade de meios (imagem e palavra) de modo a pensar o seu tempo. Assim, do mundo dissecado por um apurado sentido analítico, nasce o monumento textual Crónica dos Sentimentos de que são previstos cinco volumes. Esta ambição desmesurada de reconfigurar a tradição está patente em vários dos seus filmes, sendo o caso mais notório o filme de 570 minutos Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein - O Capital (2008) onde Kluge de forma fragmentária «como o Adorno escrevia os seus livros ou Walter Benjamin escreveu as suas Passagens» acolhe um projecto antigo e não realizado de Eisenstein de filmar O Capital.

A dado momento fundou uma produtora e aí apresentou semanalmente programas de 15, 25 ou 45 minutos que no seu conjunto perfazem mais de 1700 horas de conteúdos. Foi nesta irreverência televisiva que foram emitidos, por exemplo, os famosos diálogos entre si e os seus amigos Heiner Müller, Hans Magnus Enzensberger ou Oskar Negt. Com segmentos que abordam literatura, cinema ou ópera os seus programas são o que se poderá apelidar de televisão de autor, e são a prova da possibilidade de uma televisão sem barreiras.

Com razão diz ser «um iconoclasta moderado», sendo este segundo adjectivo bastante subjectivo (tema que lhe é caro) como nos mostra a abrangência aglutinadora da sua obra.