Charlotte Delbo



Charlotte Delbo (1913 - 1985)  foi uma escritora francesa maioritariamente conhecida pelos seus relaos assombrosos dos tempos vividos enquanto vítima e prisioneira do regime nazi. A obra determinante na sua bibliografia é a trilogia Auschwitz e Depois, agora traduzida para português.

Ainda enquanto estudante de filosofia na Sorbonne, interessa-se pela luta política e ingressa na Juventude Comunista Francesa onde conhece George Dudach, seu futuro marido. Abandona a universidade em 1937 e em 1939 torna-se secretária e actriz do actor e director de teatro Louis Jouvet. Em Maio de 1941, acompanha-o a ele e à companhia numa tour pela América do Sul enquanto o marido, que permanece em França, junta-se à Resistência.  Em Setembro de 1941, em Buenos Aires, Charlotte recebe a notícia que um dos seus amigos fora executado por «propaganda comunista». Revoltada, retorna a França e em Paris junta-se à clandestinidade. Começa a sua colaboração em Les Lettres Françaises, publicação literária fundada por Jacques Decour.

A 2 de Março de 1942 é presa, juntamente com George, por cinco polícias franceses das Brigadas Especiais. Foi uma das 230 mulheres transferidas para Auschwitz no dia 24 de Janeiro de 1943. Entrarão todas elas no campo de concentração cantando a Marselhesa. Foram obrigadas, maioritariamente, a trabalhos forçados. Das 230 mulheres, 49 sobreviveram.

Enquanto recuperava na Suíça, em 1946, escreveu Nenhum de Nós Há-de Voltar, o primeiro livro da sua obra-prima, editado em França pelas Éditions du Minuit.

Depois da guerra trabalhou para a ONU até 1960,  ano em que regressou a França para ser assistente do filósofo Henri Lefebvre. Morreu em 1985.

A sua biografia bem como a sua obra literária foram objecto de reflexão e estudo no livro Charlotte Delbo: La vie retrouvée, de Ghislaine Dunant, vencedor do Prémio Femina de Ensaio em 2016 (França).





Mark

 

Carl Seelig


Carl Seelig (1894 – 1962), filho de uma família abastada, foi um editor e escritor suíço, amigo, guardião e executor literário de Robert Walser. Durante a sua vida auxiliou inúmeros escritores e foi ainda o primeiro biógrafo de Albert Einstein. Foi um prolífico jornalista, editor e autor.

A sua produção é vasta e multifacetada. Conta com mais de uma centena de obras publicadas e na história da literatura sobressai a sua correspondência com grandes escritores do seu tempo como Max Brod ou Joseph Roth.

O seu incansável trabalho como patrono literário começou no início da década de 1920. Enquanto colaborador da editora vienense Tal-Verlag, Seelig editou textos de Stefan Zweig, Romain Holland, Henry Barbusse e organizou novas edições de autores como Georg Büchner, Henri Hein, Georg Heym entre outros.

Entre 1933 e 1945 a sua ajuda incidiu nos escritores exilados na Suíça. A generosidade de Seelig para com artistas e escritores pode ser comprovado pelas nove mil cartas que contém o seu acervo trocadas com quase todos os autores publicados na Suíça de 1920 a 1960. O seu espólio é hoje fundamental para a investigação dos denominados “Exile Studies”.

Em Caminhadas com Robert Walser, originalmente publicado em 1957, é-nos dado a entender o que W.G. Sebald evidencia quando diz que Walser não desvaneceu no esquecimento, porque Seelig guardou, tratou e divulgou a sua obra. 





Alexander Kluge


Alexander Kluge, nascido em 1932 na Alemanha, é um vulto da cultura germânica que ao longo da sua vida desdobrou-se em cineasta, escritor, filósofo, advogado e produtor televisivo. Ganhou incontáveis prémios dos quais destacamos o Prémio George Büchner (2003), o Prémio Adorno (2009) e o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza pelo seu filme Die Artisten in der Zirkuskuppel: Ratlos (1968).

É uma das principais vozes intelectuais da Europa contemporânea. Descrito em jovem como «o protegido de Adorno», Kluge criou uma obra vastíssima que pode ser vista como a interpretação, continuação e integração da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt por via da palavra e da imagem.

Começando pelo início: Kluge ganhou notoriedade internacional nos anos 60 sendo apelidado de «o Godard alemão», pelo seu trabalho de montagem influenciado pelos primeiros filmes do francês e que vai de encontro a uma tradição que remonta a Einsenstein, um dos seus mestres. Torna-se também uma figura central do denominado Novo Cinema Alemão (sendo um dos signatários do Manifesto de Oberhausen) bastante influente na segunda metade dos anos 60 e na década seguinte, ao lado de nomes como Rainer Fassbinder, Werner Herzog ou Volker Schlöndorff.

A passagem à literatura dá-se na mesma altura e sempre consciente da diferença entre o trabalho em movimento das imagens e o da cristalização das palavras, escreveu milhares de páginas onde se nota a sua ambição de cruzar a história, a política, a filosofia, a fotografia e os grandes clássicos sempre nessa duplicidade de meios (imagem e palavra) de modo a pensar o seu tempo. Assim, do mundo dissecado por um apurado sentido analítico, nasce o monumento textual Crónica dos Sentimentos de que são previstos cinco volumes. Esta ambição desmesurada de reconfigurar a tradição está patente em vários dos seus filmes, sendo o caso mais notório o filme de 570 minutos Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein - O Capital (2008) onde Kluge de forma fragmentária «como o Adorno escrevia os seus livros ou Walter Benjamin escreveu as suas Passagens» acolhe um projecto antigo e não realizado de Eisenstein de filmar O Capital.

A dado momento fundou uma produtora e aí apresentou semanalmente programas de 15, 25 ou 45 minutos que no seu conjunto perfazem mais de 1700 horas de conteúdos. Foi nesta irreverência televisiva que foram emitidos, por exemplo, os famosos diálogos entre si e os seus amigos Heiner Müller, Hans Magnus Enzensberger ou Oskar Negt. Com segmentos que abordam literatura, cinema ou ópera os seus programas são o que se poderá apelidar de televisão de autor, e são a prova da possibilidade de uma televisão sem barreiras.

Com razão diz ser «um iconoclasta moderado», sendo este segundo adjectivo bastante subjectivo (tema que lhe é caro) como nos mostra a abrangência aglutinadora da sua obra.








Publicações 

Auschwitz e Depois, Charlotte Delbo, trad. Joana Morais Varela, Novembro 2018
Caminhadas com Robert Walser, Carl Seelig, trad. Bernardo Ferro, Abril 2019 Crónica dos Sentimentos, Alexander Kluge, trad. Bruno C. Duarte, Julho 2019

Brevemente 

Les Unités Perdues, Henri Lefebvre, trad. Ricardo Nicolau

Autores


Alexander Kluge
Charlotte Delbo

Carl Seelig


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