«Que Walser não esteja hoje entre os escritores esquecidos devemo-lo, principalmente, ao facto de Carl Seelig ter abraçado a sua causa. Sem os relatos de Seelig sobre as caminhadas que fez com Walser a sua reabilitação nunca poderia ter ocorrido, e a sua memória teria, muito provavelmente, desvanecido no esquecimento»

W. G. Sebald




«(...) cada caminhada é contada de maneira cativante: nuvens, guarda-chuva, quilómetros percorridos, paragens para cerveja, conversa sobre literatura e a vida no asilo.»

Lydia Davis





Caminhadas com Robert Walser

Carl Seelig




Tradução: Bernardo Ferro
Data de edição: Abril de 2018 
ISBN: 9789895424313
Páginas: 204 

Como retratar um amigo, um autor que «nos confronta com uma selva linguística aparentemente desprovida de toda intenção e, no entanto, atraente e até fascinante», voluntariamente recluso há vários anos num sanatório? Seelig resolve essa questão tacteando cuidadosamente a personalidade desconfiada de Robert Walser, ganhando, caminhada a caminhada, a sua confiança e a sua amizade.

Anotando a posteriori as peripécias das caminhadas e as conversas tidas ao longo dos anos com Walser, Seelig constrói um mundo subtil de pequenos nadas onde as refeições, a vegetação, a chuva e a neve se cruzam com deambulações sobre literatura, arte ou política. A perambulação é o leitmotiv destas páginas e da interacção recíproca da paisagem com os caminhantes deslumbramos a personalidade de um e a generosidade do outro.

Assim, as notas que constituem este livro são peculiares, pois assim também o é o retratado. O desejo de silêncio e do minúsculo está espelhado em todo o livro. Walser prefere cumprir pequenas tarefas quotidianas, insignificantes mas essenciais ao funcionamento do hospício de Herisau, do que voltar a escrever por sentir que para esse mister é fundamental um homem ser livre de quaisquer amarras administrativas ou biológicas e várias são as diatribes de Walser quando um médico, ou mesmo Seelig, lhe falam da sua obra. Walser prefere «cerveja e crepúsculo» a qualquer notícia da sua vida passada enquanto escritor.

Entre refeições, horizontes e variações de humor, chegamos mais perto da psique de Roberto Walser, autor lido e admirado por gigantes como Walter Benjamin, Franz Kafka, W. G. Sebald ou Elias Canetti. Entre caminhadas longuíssimas e o olhar sensível de Seelig, a sua voz funde-se ao estilo ficcional walseriano e entre ninharias vemos o nascer de uma amizade e o fio rafado de um recluso que deixa, por fim, que lhe façam companhia no fim do seu trilho.

Por tudo isto, estamos perante um livro delicado e especialmente relevante para a compreensão da vida e obra de Walser, esse gigante que só queria diminuir e desaparecer em silêncio como o trabalho da neve sob os telhados.


Primeiras páginas


26 de Julho de 1936

As nossas relações começaram com algumas cartas prosaicas: perguntas e respostas breves e concretas. Eu sabia que Robert Walser dera entrada como doente mental na clínica de Waldau, em Berna, no início de 1929, e que vivia desde Junho de 1933 no sanatório cantonal de Appenzell-Außerrhoden, em Herisau. Sentia a necessidade de fazer algo por ele e pela publicação das sua obras. De entre todos os escritores suíços contemporâneos, parecia-me o mais singular. Ele acedeu a que o fosse visitar, e por isso parti de Zurique naquele domingo, de manhã cedo, com destino a St. Gallen. Vagueei pela cidade e ouvi o sermão sobre a «dissipação dos talentos» na igreja colegial. Quando cheguei a Herisau, os sinos da igreja ressoavam. Comuniquei a minha chegada ao médico que dirigia o sanatório, o Dr. Otto Hinrichsen, que me autorizou a ir passear com Robert.
O escritor de cinquenta e oito anos surgiu de um edifício vizinho, acompanhado de um enfermeiro. Fiquei surpreendido com o seu aspecto: um rosto de criança redondo, como que atravessado por um raio, as bochechas levemente rubras, os olhos azuis e um curto bigode dourado; o cabelo já grisalho junto às têmporas; o colarinho puído e a gravata meio torta; os dentes em mau estado. Quando o Dr. Hinrichsen lhe quis apertar o primeiro botão do colete, ele repeliu-o: «Não, tem de ficar aberto!» Falava um Bärndütsch melodioso, o mesmo que falara durante a juventude, em Biel.
Após a despedida algo abrupta do médico, tomámos o caminho que levava à estação de Herisau e, mais adiante, a St. Gallen. Era um dia quente de Verão. Cruzámo-nos com vários fiéis a caminho da igreja, que nos cumprimentaram amigavelmente. A irmã mais velha de Robert, Lisa, tinha-me avisado de que o irmão era invulgarmente desconfiado. Que deveria eu fazer? Mantinha-me calado. Ele mantinha-se calado. O silêncio era a ponte estreita através da qual nos íamos aproximando um do outro. Caminhávamos, com a cabeça em brasa, ao longo da paisagem — uma paisagem ondulada e tranquila de bosques e prados. Por vezes, Robert parava para acender um cigarro Maryland, erguia-o junto ao nariz e cheirava-o.
Almoço em Löchlibad. Com cerveja e vinho de Berneck, vermelho como sangue, o gelo começa a fundir-se. Robert conta que trabalhou em Zurique, antes da viragem do século, no Instituto de Crédito Suíço e no Banco Cantonal. Mas apenas durante alguns meses, até ter de novo liberdade para escrever. Não se pode servir dois mestres ao mesmo tempo. Foi por essa altura que surgiu o seu primeiro livro, As Redacções de Fritz Kocher, editado pela Insel em 1904, com onze desenhos do seu irmão Karl. Não chegou a receber quaisquer honorários pelo livro, que ficou esquecido nas livrarias e acabou por ser vendido a preço de saldo. O seu alheamento em relação às cliques literárias causou-lhe sérios problemas financeiros, mas a idolatria que reina nesses meios é-lhe pura e simplesmente repugnante. Ela rebaixa o escritor, converte-o num mero engraxador de sapatos. Sim, ele bem o sente: o seu tempo passou. Mas isso não o perturba. Quando se chega perto dos sessenta, há que ser capaz de conceber um outro tipo de existência. Escrevera os seus livros como um camponês que semeia e ceifa, enxerta um ramo, dá de comer ao gado e espalha o estrume. Por sentido de dever e para ter algo que comer. «Para mim, foi um trabalho como outro qualquer.»
O período mais produtivo da sua vida de escritor foram os sete anos que passou em Berlim e os sete anos seguintes, em Biel. Aí ninguém o quis pressionar ou controlar. Tudo pôde crescer tranquilamente, como as maçãs numa macieira. Do ponto de vista das relações humanas, o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial foi vergonhoso para a maioria dos escritores. O seu trabalho ganhou um carácter azedo e rancoroso. E, porém, a literatura deve emanar amor, deve ser reconfortante. O ódio não deve converter-se em força motriz. O ódio é um elemento improdutivo. Foi nesse tempo, no meio dessas orgias tristes, que começou o seu declínio artístico… Os prémios literários eram distribuídos por falsos redentores, ou mestres-escola pedantes. Contra isso não pôde fazer nada. Mas não era razão para vergar-se perante quem quer que fosse — e não o faria até ao dia da sua morte. De resto, a moda das cliques e do compadrio acaba sempre por destruir-se a si mesma.
Por entre a conversa, considerações admirativas sobre O Idiota, de Dostoievsky, sobre Da Vida de um Inútil, de Eichendorff, sobre a poesia viril e ousada de Gottfried Keller. Já Rilke, no seu entender, é leitura de cabeceira para solteironas. De Jeremias Gotthelf, aquilo de que mais gosta são os dois volumes de Uli . Algumas das suas outras obras parecem-lhe demasiado grosseiras, ruidosas e moralistas.


3 de Janeiro de 1937

Caminhada por St. Gallen e Speicher em direcção a Trogen, que recordo dos tempos da escola cantonal. Almoço no albergue Schäfli. Em honra dos meus antepassados maternos, que durante séculos possuíram vinhas em Buchberg, no vale do Reno, peço uma garrafa de Buchberger. O rádio fornece um acompanhamento indesejado: uma comédia suábia.
De tarde, o espírito tomado pela melancolia e pela neve, subimos ao Gäbris. Em tempos, era eu tenente-cadete, fiz ali fraca figura, empunhando um sabre enorme que pedi emprestado ao médico da aldeia. Vento de oeste, intermitente mas cortante. Robert sem sobretudo. No comboio, na viagem de regresso: o seu rosto está agora iluminado, como uma tocha acesa. Linhas profundas e dolorosas, da base do nariz até à boca carnuda, visivelmente rubra. Os seixos que cobrem o cais da estação de St. Gallen reluzem. Robert tem lágrimas nos olhos. Um aperto de mão forte e apressado. Fragmentos da nossa conversa:
A sua estada em Zurique prolongou-se, com interrupções, do Outono de 1896 até ao início de 1903; instalou-se primeiro no Zürichberg, depois na Spiegelgasse, no distrito de Schipfe, e a seguir em Außersihl. Passou outros sete anos (de 1906 a 1913) em Berlim, e foi essa também a duração da sua segunda estada em Biel. Já muitas vezes se dera conta de que o número 7 reaparece periodicamente na sua vida.
Em Berlim-Charlottenburg viveu num apartamento de dois quartos, primeiro com o seu irmão Karl e depois sozinho. Quando Bruno Cassirer, o editor, decidiu enfim que não continuaria a sustentá-lo, uma senhora rica e de coração nobre tomou o seu lugar e cuidou de Robert durante dois anos. Quando ela morreu, em 1913, viu-se obrigado a regressar à sua terra natal. Haveria ainda de pensar com frequência, durante muito tempo, na beleza tranquila dos bosques do Brandeburgo.
Em Berna, onde vivera uns oito anos, a partir de 1928, o tradicionalismo local beneficiara a sua produção literária. Em contrapartida, as tentações do álcool e de uma vida aconchegada tiveram sobre ele um efeito negativo. «Em Berna, sentia-me por vezes como que possuído. Punha-me a perseguir motivos poéticos como um caçador em busca da presa. Os momentos mais produtivos surgiam ao passear pelas ruas, ou em longas excursões aos arredores da cidade, cujos ganhos intelectuais confiava ao papel no regresso a casa. Todo o trabalho bem-sucedido, até mesmo o mais modesto, requer inspiração artística. É claro para mim que a actividade do escritor só pode florescer em liberdade. As minhas melhores horas de trabalho eram de manhã e à noite. Da hora de almoço ao fim da tarde, sentia-me embrutecer. O meu melhor cliente, nessa época, era o Prager Presse, financiado pelo governo checo. O editor literário, Otto Pick, publicava tudo o que eu lhe enviava, incluindo poemas que havia submetido a outros jornais e que voavam de volta como boomerangs. Antes disso, trabalhei muitas vezes para o Simplicissimus, mas as minhas contribuições eram-me devolvidas com frequência. O editor achava que lhes faltava humor. O que era aceite, porém, era bem pago: cinquenta marcos, pelo menos, por uma pequena história, o que para mim era uma pequena fortuna.»
Eu: «Talvez o ambiente do sanatório e o seu internamento lhe forneçam material para um romance.» Robert: «Não creio. De qualquer modo, seria incapaz de o construir enquanto aqui estiver. O Dr. Hinrichsen até me ofereceu uma sala para escrever, mas eu sento-me e fico como que pregado à cadeira, incapaz de produzir o que quer que seja. Talvez se vivesse dois ou três anos fora do sanatório, em liberdade, me viesse uma grande inspiração…» Eu: «De quanto precisaria para poder viver da escrita, em liberdade?» Robert, após um momento de reflexão: «Cerca de mil e oitocentos francos anuais.» «Só isso?» «Sim, seria suficiente. Quantas vezes na minha juventude não tive de governar-me com menos! Pode-se viver muito bem sem confortos materiais. Em todo o caso, não poderia comprometer-me com um jornal ou um editor. Não quereria fazer promessas que não posso cumprir. Tudo deve brotar de mim mesmo, livremente.»
Mais tarde: «Se pudesse regressar ao trigésimo ano da minha vida, não me poria a escrever sem objectivo, como um romântico irreverente, excêntrico e despreocupado. Não se deve rejeitar a sociedade. Deve-se viver nela e lutar por ela, ou contra ela. É esse o erro dos meus romances. São demasiado extravagantes, demasiado reflexivos — e, muitas vezes, no que toca à composição, demasiado descuidados. Estive-me nas tintas para as leis da composição artística; limitei-me a improvisar, como um músico. Para a nova edição d’Os Irmãos Tanner, teria encurtado o livro, de bom grado, em setenta ou oitenta páginas. Hoje acredito que ninguém deve publicar juízos tão íntimos sobre os seus próprios irmãos.» Eu: «Li recentemente, com a maior admiração, o seu Jakob von Gunten. Onde foi escrito, ao certo?» «Em Berlim. É, em grande parte, uma fantasia poética. Algo ousado, não acha? De entre os meus livros mais longos, é também o que prefiro.» Após uma pausa: «Muitas vezes, quanto menor é o enredo de que um escritor precisa, e quanto menor o enquadramento da sua história, tanto maior é o seu talento. Tendo a desconfiar de autores que são exímios a urdir enredos e reclamam o mundo inteiro para as suas personagens. As coisas de todos os dias são suficientemente belas e ricas para que delas se possa extrair faíscas poéticas.»
Conversa sobre o dramaturgo August von Kotzebue, cuja graça e à-vontade social Robert admira. Ele lembra que, no início do século XIX, Kotzebue foi deportado, viveu na Sibéria durante um ano e registou a sua experiência num livro de memórias em dois volumes. Além disso, também o seu fim foi dramático: foi assassinado pelo estudante hiperpatriótico Karl Ludwig Sand. Pela sua atitude reaccionária, Kotzebue converteu-se num obstáculo para Schiller e Goethe. Robert não acredita que a literatura suíça possa progredir enquanto não superar o seu provincianismo. Tem de tornar-se mundana e cosmopolita, vencer a sua estreiteza, transcender o universo mesquinho da pequena propriedade rural. Robert elogia Uli Bräker, o «homem pobre de Toggenburg», e os seus ensaios sobre Shakespeare. Eram ideais bem diferentes, muito superiores aos dos escritores contemporâneos, aqueles que perseguia, ainda, Gottfried Keller. Robert recita um dos seus poemas, «Corre uma bela lenda» , de uma ponta à outra. O Heinrich, o Verde, de Keller, permanece para as gerações futuras um livro de referência, maravilhosamente educativo, digno de ser lido e estimado. «Há pouco tempo, uma funcionária do sanatório quis impingir-me o Witiko de Stifter, mas eu expliquei-lhe que não me interessava nada um romance tão corpulento. De Stifter bastam-me os estudos sobre a natureza — essas observações incomparavelmente íntimas, nas quais introduziu os seres humanos de modo tão harmonioso. Mas que me diz você à barrigada que é a trilogia de José, de Thomas Mann? Como é que alguém se atreve a pegar num tema retirado da Bíblia e empastá-lo daquela maneira?»
A propósito de revoluções: «É um disparate querer encenar rebeliões fora das cidades. Quem não controla as cidades não controla o coração do povo. Todas as revoluções bem-sucedidas partiram das cidades. Por isso, quanto à guerra civil espanhola, estou convencido de que o governo acabará por triunfar.»
«A era guilhermina permitiu aos artistas comportamentos marginais e extravagantes. Chegou mesmo a apaparicar os seus caprichos. Mas até os artistas devem sujeitar-se a princípios razoáveis. Não devem converter-se em bufões.»







Publicações 

Auschwitz e Depois, Charlotte Delbo, trad. Joana Morais Varela, Novembro 2018
Caminhadas com Robert Walser, Carl Seelig, trad. Bernardo Ferro, Abril 2019 Crónica dos Sentimentos, Alexander Kluge, trad. Bruno C. Duarte, Julho 2019

Brevemente 

Les Unités Perdues, Henri Lefebvre, trad. Ricardo Nicolau

Autores


Alexander Kluge
Charlotte Delbo

Carl Seelig


Info

BCF EDITORES Rua de São Bento, n.º 644, 2.º esq. 1250-223 Lisboa // bcfeditores@gmail.com
Mark