«Além de Guernica e do filme Nuit et Brouillard, não conheço obra comparável a esta de Charlotte Delbo: o mesmo pudor, a mesma ruptura, a mesma pavorosa ternura.»

François Bott, L' Express



«(...) Charlotte Delbo transmite, com parcimónia e nuance, imagens do inferno de Auschwitz. O que ela relembra, em prosa e em verso, seria insuportável sem a precisão extrema de pensamento e sentido. Nenhum testemunho desses tempos é mais sensível e menos sentimental.» 

Geoffrey Hartman, Yale University





Auschwitz e Depois

Charlotte Delbo




Tradução: Joana Morais Varela
Data de edição: Novembro de 2018
ISBN: 9789895424306
Páginas: 470

Como continuar a viver se o corpo recorda os golpes, a fome, a sede, o medo e o desprezo? Charlotte Delbo continuou e com essas memórias escreveu livros exigentes como os três que compõem Auschwitz e Depois.

Nenhum de Nós Há-de Voltar, Um Conhecimento Inútil e Medida dos Nossos Dias são os respectivos nomes e partilham entre si a sensibilidade dessa mulher, resistente, presa política, sobrevivente, e todos expõem imagens estilhaçadas e tenebrosas de Auschwitz bem como o poder que o horror tem de desalinhar biografias que nunca souberam como atar o nó com quem eram antes da guerra.
Se Nenhum de Nós Há-de Voltar
, só editado em 1965, quase vinte anos depois de ser escrito enquanto Charlotte recuperava na Suíça, se foca no quotidiano do campo numa perspectiva pessoal do que foi visto, sentido e suportado; o segundo volume, Um Conhecimento Inútil, publicado em 1970, colmata espaços não descritos desta jornada infernal (Ravensbrück; os SS que se tornam progressivamente humanos; o primeiro encontro com civis) bem como dá espaço a uma nova inquietação: o que fazer quando voltarmos? Da verificação do que foi feito, ou foi possível fazer, desses destinos que sofreram o indizível, nasce o último livro da trilogia, Medida dos Nossos Dias.

Ao longo das últimas décadas, traduzida e editada, Charlotte Delbo foi encontrando o seu espaço no mundo livresco fora de França. Cada vez são mais os leitores que aceitam o apelo de Charlotte: olhar para tentar ver.

Auschwitz e Depois é publicado em Portugal com tradução de Joana Morais Varela, tradutora de, entre outros, Milan Kundera, Michel Tournier, Leopoldo Alas, Albert Cohen, Saint-Exupéry, Gilles Deleuze e Félix Guatarri.

Primeiras páginas


Hoje não tenho a certeza que aquilo
que escrevi seja verdadeiro.
Tenho a certeza de que é verídico.


Há as pessoas que chegam. Procuram com o olhar no meio da multidão das que esperam aquelas que as esperam. Beijam-nas e dizem que estão cansadas da viagem.
Há as que partem. Dizem adeus às que ficam e beijam as crianças.
Há uma rua para as que chegam e uma rua para as que partem.
Há um café que se chama Bem-Vindos e um café que se chama Boa Viagem.
Há pessoas que chegam e há pessoas que partem.

Mas há uma estação onde os que chegam são precisamente os que partem
uma estação onde os que chegam nunca chegaram, onde os que partiram nunca voltaram.
É a maior estação do mundo.
Venham donde vierem, é a esta estação que chegam.
Chegam depois de dias e dias e de noites e noites
tendo atravessado países de ponta a ponta
chegam com os filhos, mesmo com os mais pequeninos que não deviam viajar.
Levaram os filhos porque ninguém se separa de um filho numa viagem como esta.

Os que tinham ouro levaram-no porque pensaram que podia ser útil.
Todos levaram o que tinham de mais querido porque não se deve deixar o que nos é mais querido quando se vai para longe.
Todos levaram a própria vida, era sobretudo a vida que era preciso levar.
E quando chegam
julgam que chegaram
possivelmente
ao inferno. Mas não acreditavam.
Não sabiam que se apanhava o comboio para o inferno mas já que lá estão armam-se e sentem-se prestes a afrontá-lo
com os filhos as mulheres os velhos parentes com as recordações de família e os papéis de família.






Publicações 

Auschwitz e Depois, Charlotte Delbo, trad. Joana Morais Varela, Novembro 2018
Caminhadas com Robert Walser, Carl Seelig, trad. Bernardo Ferro, Abril 2019 Crónica dos Sentimentos, Alexander Kluge, trad. Bruno C. Duarte, Julho 2019

Brevemente 

Les Unités Perdues, Henri Lefebvre, trad. Ricardo Nicolau

Autores


Alexander Kluge
Charlotte Delbo

Carl Seelig


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